Ficha técnica de pratos: como fazer passo a passo (com exemplo)
Por mise · Atualizado em 18/09/2026
Resposta rápida: uma ficha técnica precisa de ingrediente, quantidade bruta, quebra, quantidade líquida, preço de compra por quilo e custo do ingrediente. A soma dos custos é o custo da confeção; a dividir pelas doses dá o custo por dose, e esse custo a dividir pelo preço de venda sem IVA dá a percentagem de food cost. No exemplo desta página, um bacalhau à Brás para quatro custa 10,80 €, fica a 2,70 € a dose e, com 9,00 € sem IVA na ementa, o food cost é de 30%.
A ficha técnica é a receita com o preço posto: quanto entra de cada ingrediente no prato, quanto isso custa hoje e quanto sobra depois de vender. Sem ficha técnica, o preço da ementa é um palpite bem vestido.
O que é uma ficha técnica (e o que não é)
A ficha técnica é o documento de custo de um prato. Não é a receita de cozinha: a receita diz como se faz, a ficha diz quanto custa fazer. As duas costumam viver na mesma folha, mas quem decide o preço da ementa é a segunda.
Também não é um papel que se faz uma vez e se arruma na gaveta. A ficha vale exatamente o que valem os preços de compra que lá estão: se a última fatura do fornecedor subiu o quilo do bacalhau, a ficha de ontem já mente. Por isso convém tê-la ligada ao stock e às faturas, e não num caderno.
Os campos que não podem faltar
Estes são os campos mínimos de uma ficha técnica que sirva para alguma coisa. Qualquer coluna a mais é opcional; qualquer uma destas que falte deixa a conta coxa.
| Campo | O que é | Exemplo |
|---|---|---|
| Ingrediente | O produto tal como o compras | Batata |
| Quantidade bruta | O que sai do stock, por limpar | 500 g |
| Quebra | O que se perde a descascar, limpar ou porcionar | 20% |
| Quantidade líquida | O que fica dentro do prato | 400 g |
| Preço de compra | Preço por quilo ou por litro da última fatura, sem IVA | 1,10 €/kg |
| Custo do ingrediente | Quantidade bruta × preço de compra | 0,55 € |
| Custo total | Soma de todos os ingredientes | 10,80 € |
| Doses | Quantas saem da confeção | 4 |
| Custo por dose | Custo total ÷ doses | 2,70 € |
| Preço de venda | Preço de ementa sem IVA | 9,00 € |
| % food cost | Custo por dose ÷ preço de venda | 30% |
Bruto, quebra e líquido: é aqui que foge o dinheiro
A conta que mais fichas técnicas estraga é confundir o que se compra com o que entra no prato. Compra-se batata suja com casca; o cliente come batata descascada. Se fizeres a ficha com a quantidade líquida ao preço de compra, o prato sai mais barato do que é e a margem desaparece sem saberes por onde.
Há duas formas de fazer isto bem, e dão o mesmo resultado:
- Pela quantidade bruta: multiplicas o que sai do stock pelo preço de compra. 500 g de batata × 1,10 €/kg = 0,55 €.
- Pelo preço líquido: calculas o fator de correção (bruto ÷ líquido = 500 ÷ 400 = 1,25), aumentas o preço de compra (1,10 € × 1,25 = 1,375 €/kg) e multiplicas pela quantidade líquida: 0,400 kg × 1,375 €/kg = 0,55 €.
O segundo método dá mais trabalho, mas põe à vista o preço real do produto já limpo, que é o número com que se negoceia com o fornecedor. O que não pode é misturar: quantidade líquida multiplicada pelo preço de compra do bruto.
Como medir a tua quebra real: pesa o género antes de limpar e depois. Quebra = (bruto − líquido) ÷ bruto. Faz isto três vezes com o mesmo fornecedor e fica com a média; se mudares de fornecedor ou de calibre, repete a prova.
Exemplo completo: ficha técnica de bacalhau à Brás
Um bacalhau à Brás para quatro doses. Preços de compra sem IVA, redondos e plausíveis numa compra a grossista. Todos os números desta tabela fecham à mão.
| Ingrediente | Qt. bruta | Quebra | Qt. líquida | Preço compra | Custo |
|---|---|---|---|---|---|
| Bacalhau demolhado | 600 g | 10% | 540 g | 12,00 €/kg | 7,20 € |
| Batata | 500 g | 20% | 400 g | 1,10 €/kg | 0,55 € |
| Ovos | 8 un. | 0% | 8 un. | 0,25 €/un. | 2,00 € |
| Cebola | 200 g | 15% | 170 g | 0,90 €/kg | 0,18 € |
| Azeite | 80 ml | 0% | 80 ml | 7,50 €/l | 0,60 € |
| Azeitona preta | 40 g | 0% | 40 g | 5,25 €/kg | 0,21 € |
| Alho e salsa | 15 g | 0% | 15 g | 4,00 €/kg | 0,06 € |
| Custo total da confeção | 10,80 € | ||||
As contas, uma a uma:
- Custo total: 7,20 + 0,55 + 2,00 + 0,18 + 0,60 + 0,21 + 0,06 = 10,80 €
- Custo por dose: 10,80 € ÷ 4 doses = 2,70 €
- Preço de venda para um food cost de 30%: 2,70 € ÷ 0,30 = 9,00 € sem IVA
- Com o IVA da restauração (13% no continente): 9,00 € × 1,13 = 10,17 €, que na ementa se arredonda para 10,50 €
- Food cost real a 10,50 € na ementa: base 9,29 €, e 2,70 € ÷ 9,29 € = 29,1%
Repara no que acontece se saltares a quebra do bacalhau: 540 g a 12,00 €/kg dariam 6,48 € em vez de 7,20 €, o prato ficaria a 10,08 € e a dose a 2,52 €. São 18 cêntimos por dose. Multiplica pelas doses que sais num ano e percebes porque é que a quebra não é um pormenor.
Do custo ao preço de venda
A ficha dá o custo; o preço pões tu. A fórmula é direta: preço sem IVA = custo por dose ÷ food cost pretendido. Com um custo de 2,70 € e um objetivo de 30%, o preço é 9,00 €; com um objetivo de 28%, 9,64 €.
Três coisas a ter claras antes de fixar o número:
- O food cost calcula-se sempre sobre o valor sem IVA, não sobre o preço de ementa. Se comparares custo sem IVA com preço com IVA, a percentagem sai-te mais baixa do que é.
- Nem todos os pratos levam a mesma percentagem. O que se olha é o food cost do conjunto da ementa ponderado pelo que se vende, não prato a prato. Uma entrada a 20% e um peixe a 38% podem conviver muito bem.
- A ficha técnica não inclui pessoal, renda nem eletricidade. São custos reais, mas entram noutro sítio da conta; metê-los aqui suja a comparação entre pratos.
Ficha técnica de bebidas e de doses
A mesma tabela serve para o balcão, e é aí que o resultado se vê mais depressa. Uma garrafa de 70 cl que dá 14 doses de 5 cl deixa um custo por dose de preço da garrafa ÷ 14: uma garrafa de 10,50 € fica a 0,75 € a dose. Se a dose se vender a 3,50 € sem IVA, o food cost dessa dose é de 21,4%.
Aqui o inimigo não é a quebra da limpeza, é a dose: servir 6 cl em vez de 5 cl baixa o rendimento de 14 para 11 doses e sobe o custo por dose para 0,95 €. Medir a dose real é, no balcão, o que pesar o género é na cozinha. Atenção também ao IVA: as bebidas alcoólicas ficam à taxa normal (23%), e não à taxa da comida, por isso a conta do preço de venda é outra.
Erros que estragam uma ficha técnica
- Usar a quantidade bruta como se fosse líquida (ou ao contrário). É o erro mais caro e o mais comum.
- Preços velhos. Uma ficha com preços de há seis meses não é uma ficha, é uma recordação. O preço tem de vir da última fatura.
- Esquecer o que não se vê: o azeite de fritar, os temperos, o pão que acompanha, o guardanapo e a embalagem do take-away. Se o prato sai para fora, a embalagem é mais um ingrediente.
- Não contar as doses reais. Se a confeção dá 4 doses mas no passe saem 3, o custo por dose é um terço mais alto do que o da ficha.
- Não refazer ao mudar de fornecedor ou de corte. Outro calibre de batata é outra quebra; outro fornecedor é outro preço.
- Misturar IVA. Compras com IVA suportado e vendes com IVA liquidado: a ficha faz-se toda sem IVA.
De onde vem o preço atualizado
Da fatura de compra. Na mise, a fatura entra por foto, PDF ou XML e atualiza o preço que pagaste por cada produto; a contagem confirma quanto existe. Com isso, a ficha técnica deixa de ser um documento antigo numa gaveta e passa a recalcular-se sozinha quando o fornecedor sobe.
Para dar entrada ao género não é preciso escrever nada: lês o código de barras com o telemóvel e o produto chega completo, com nome, formato e categoria, porque a IA da mise o encontra pelo código de barras ou por fotografia e classifica-o.
Lê o código de barras, carrega a fatura e deixa os custos das tuas fichas atualizarem-se sozinhos.
Criar conta grátisPerguntas frequentes
Qual é a diferença entre ficha técnica e receita?
A receita descreve como se faz o prato: ingredientes, modo de preparação e empratamento. A ficha técnica acrescenta a parte que decide o negócio — quantidades brutas e líquidas, quebras, preços de compra e custo por dose. Um bom documento de cozinha tem as duas coisas na mesma folha, mais os alergénios.
O que é o fator de correção e como se calcula?
É quanto é preciso comprar para obter uma unidade limpa. Calcula-se dividindo a quantidade bruta pela líquida: 500 g de batata que dão 400 g limpos têm um fator de correção de 1,25. Multiplicando o preço de compra por esse fator obténs o preço real do produto já limpo.
A ficha técnica leva IVA?
Não. A ficha faz-se toda com preços sem IVA, tanto nos custos como no preço de venda, porque o IVA suportado nas compras não é um custo da atividade. O preço com IVA só aparece no fim, quando se passa o número para a ementa.
De quanto em quanto tempo se atualiza uma ficha técnica?
Sempre que um preço de compra mude de forma relevante, quando mudares de fornecedor ou de calibre, e obrigatoriamente antes de mexer nos preços da ementa. Se os preços se atualizarem sozinhos com cada fatura, a revisão passa a ser uma confirmação de cinco minutos.
Serve para um bar sem cozinha?
Serve, e é onde rende mais depressa. Rendimento de garrafa, dose servida e custo por copo saem da mesma tabela, trocando gramas por centilitros. Um barril de imperial ou uma garrafa de vinho fazem-se exatamente como um prato.
Que percentagem de food cost devo ter?
Depende do tipo de casa, da ementa e da zona, por isso não há um número universal. O que conta é medir sempre com o mesmo critério e vigiar a tendência: um food cost que sobe três meses seguidos diz muito mais do que uma comparação com a média do setor.